Mate do pastor: como dar, como evitar e por que não vale a pena
O mate do pastor em quatro lances: a linha exata, como se defender sem perder tempo, como punir a dama precoce e o que é o mate do louco.
Por AcademiaTal7 min de leitura
O mate do pastor é um xeque-mate em quatro lances: as brancas levam o bispo para c4 e a dama para h5 ou f3, e as duas peças atacam juntas o peão de f7, que no começo da partida só o rei preto protege. Se as pretas não cobrem essa casa, Dxf7 é mate. Um único lance na hora certa resolve —...g6, ...De7 ou ...Cf6 no momento exato— e, bem defendido, ele deixa as brancas pior do que se tivessem desenvolvido normalmente.
Abaixo estão a linha exata, por que ela funciona, as defesas que não perdem tempo, como punir quem tenta e o seu parente ainda mais curto, o mate do louco.
A linha exata
A versão mais comum começa pelo bispo:
1.e4 e5 2.Bc4 Cc6 3.Dh5 Cf6 4.Dxf7#
A dama chega a f7 protegida pelo bispo, então o rei não pode capturá-la, e todas as casas de fuga estão bloqueadas pelas próprias peças pretas ou controladas pela dama. As pretas fizeram três lances que parecem razoáveis —ocupar o centro, desenvolver um cavalo, desenvolver o outro— e mesmo assim perdem, porque o terceiro atacou a dama em vez de olhar o que ela ameaçava.
O mesmo mate sai com outra ordem, tirando primeiro a dama: 1.e4 e5 2.Dh5 Cc6 3.Bc4 Cf6 4.Dxf7#. E também com a dama em f3 em vez de h5, por exemplo 1.e4 e5 2.Bc4 Bc5 3.Df3 Cc6 4.Dxf7#. As três versões são a mesma ideia: duas peças contra uma casa defendida por uma só.
Por que funciona: o ponto fraco de f7
No começo da partida, os peões de f7 e f2 são os mais frágeis do tabuleiro. Ficam ao lado do rei e, antes do roque, o rei é a única peça que cuida deles. Qualquer peça que os ataque duas vezes os ganha, e se a captura ainda vier com xeque e o rei não tiver para onde ir, é mate.
Por isso tantas armadilhas miram ali. O mate do pastor é a versão mais direta, mas a mesma fraqueza está por trás do mate de Légal, do Gambito Blackburne-Shilling e do Ataque Fegatello, que mostramos no guia de armadilhas de abertura. Entender f7 é entender metade dos golpes táticos dos dez primeiros lances; a outra metade está nos motivos táticos básicos.
O nome não tem uma história única. Em português e em espanhol se diz «do pastor»; em inglês é scholar's mate, o mate do estudante, e já aparece em The Royall Game of Chesse-Play, o livro de Francis Beale de 1656 baseado na obra de Gioachino Greco. É, literalmente, um truque ensinado há quase quatro séculos.
Como se defender sem perder tempo
Uma boa defesa precisa cumprir duas condições: cobrir f7 e não entregar material no caminho. Contra a versão com 2.Dh5, a ordem mais limpa é esta:
1.e4 e5 2.Dh5 Cc6 3.Bc4 g6 4.Df3 Cf6
Primeiro 2...Cc6 defende o peão de e5, que a dama também ataca. Depois 3...g6 tapa a diagonal até f7 e ainda ataca a dama. As brancas insistem de f3 e 4...Cf6 fecha a coluna com uma peça que de qualquer jeito queria ir para essa casa. As pretas desenvolveram duas peças e avançaram um peão ganhando tempo; a dama branca já se mexeu duas vezes e provavelmente vai se mexer de novo.
Existe outra defesa válida, 1.e4 e5 2.Dh5 Cc6 3.Bc4 De7: a dama cobre f7 e não pode ser atacada por nada. É segura, mas tranca o bispo de f8, então é preciso planejar tirá-lo depois com ...g6 e ...Bg7. Contra a versão com o bispo primeiro, 1.e4 e5 2.Bc4 Cf6 resolve o problema antes: o cavalo já está em f6 quando a dama quiser vir, e ainda ataca o peão de e4.
Os dois erros que custam um peão
Quem acabou de aprender a se defender costuma cair em uma destas duas respostas a 2.Dh5, e as duas custam material.
A primeira é tirar o cavalo na hora: em 1.e4 e5 2.Dh5 Cf6 3.Dxe5+ a dama captura o peão de e5 com xeque. O cavalo atacava a dama, sim, mas deixou o centro sem defesa.
A segunda sai mais cara. Tapar a diagonal com o peão antes de defender e5 permite um garfo:
1.e4 e5 2.Dh5 g6 3.Dxe5+
A dama dá xeque e ao mesmo tempo ataca a torre de h8 pela diagonal que ...g6 acabou de abrir. As pretas precisam responder ao xeque e perdem a torre. Por isso a ordem importa: primeiro ...Cc6, depois ...g6. Um lance certo feito na hora errada é um lance ruim.
Como punir quem tenta
Se você se defendeu bem, a partida não está igual: está melhor para você. A dama branca saiu cedo, se mexeu várias vezes e virou alvo das suas peças menores. Veja o que acontece se as brancas seguem a mesma lógica de atacar com a dama:
As brancas queriam expulsar o cavalo de f6 com 5.g4, mas 5...Cd4 ataca a dama e ameaça ...Cxc2+. A dama precisa voltar para casa e 6...d5 abre o centro com o bispo de c4 e o peão de e4 atacados. Em seis lances a dama branca deu uma volta inteira no tabuleiro e as pretas têm todas as peças prontas para entrar no jogo. Não é preciso decorar cada linha: basta aplicar a ideia de desenvolver atacando a dama sempre que der.
O que não convém é sair caçando a dama com lances de peão que enfraquecem o seu próprio rei. Desenvolver com ameaça, sim; persegui-la com ...f5 ou ...h5 sem motivo, não.
Por que não vale a pena buscá-lo
Muitos iniciantes o jogam em todas as partidas porque funciona contra outros iniciantes. O problema é o que acontece quando não funciona: a dama fica exposta, o desenvolvimento atrasa e o adversário joga com tempos a mais. É o erro número sete da nossa lista de erros de iniciante, e não é à toa.
Os princípios de abertura dizem justamente o contrário do que o mate do pastor faz: desenvolver as peças menores antes da dama, não mexer duas vezes a mesma peça e rocar cedo. Quem aprende a ganhar com o mate do pastor aprende a jogar contra adversários que erram, e fica sem ferramentas contra os que não erram.
Se você gosta de atacar f7, existe um jeito sério de fazer isso: a Abertura Italiana, em que o bispo continua indo para c4, mas acompanhado do cavalo, do roque e de um plano. Ali a pressão sobre f7 faz parte de uma partida e não é uma aposta. O curso Abertura Italiana a fundo dedica duas aulas ao Ataque Fegatello, que é o ataque a f7 levado até o fim, e o de Estratégia, sacrifícios e aberturas tem uma aula sobre sacrifícios em f2 e f7.
O mate do louco: o mais curto possível
O mate do pastor tem um parente ainda mais rápido, e desta vez quem leva o mate são as brancas:
1.f3 e5 2.g4 Dh4#
Dois lances de peão abrem a diagonal entre a dama preta e o rei branco, e nada pode tapá-la. É o mate mais curto que existe no xadrez e quase nunca aparece numa partida real, porque exige dois lances muito ruins seguidos. O mesmo pode acontecer com as pretas: 1.e4 g5 2.d4 f6 3.Dh5#.
A lição é a mesma do mate do pastor vista do outro lado: os peões de f e g protegem o rei, e mexer neles no começo da partida sem motivo abre linhas por onde entra a dama adversária.
O que fazer com isso
Se você está começando, jogue algumas partidas de pretas só para treinar a defesa: peça para alguém aplicar o mate do pastor e responda com ...Cc6, ...g6 e ...Cf6 até sair sem pensar. Depois, de brancas, jogue aberturas que desenvolvam as peças —a Italiana é a porta natural— e deixe a dama em casa nos primeiros lances.
E antes de cada lance faça a pergunta que teria salvado as pretas na primeira linha deste artigo: o que ameaça o último lance do meu adversário? Se você quer um caminho organizado para o que vem depois, ele está no guia para aprender xadrez do zero.
É um xeque-mate em quatro lances em que a dama e o bispo das brancas atacam juntos o peão de f7, que só o rei preto defende. A linha típica é 1.e4 e5 2.Bc4 Cc6 3.Dh5 Cf6 4.Dxf7#.
Como evitar o mate do pastor?
Defendendo f7 ou tapando a diagonal da dama antes de desenvolver o cavalo do rei. Contra 2.Dh5, o mais simples é 2...Cc6 e depois 3...g6; se a dama voltar para f3, 4...Cf6 corta a ameaça de vez.
Qual é a diferença entre o mate do pastor e o mate do louco?
O mate do pastor é dado pelas brancas em quatro lances atacando f7. O mate do louco é o mais curto possível, em dois lances: 1.f3 e5 2.g4 Dh4#, e quem leva o mate são as brancas, por enfraquecer a diagonal do próprio rei.
Vale a pena jogar o mate do pastor?
Não como forma habitual de abrir. Ele vence quem não o conhece, mas contra uma defesa correta deixa a dama exposta, atrasa o desenvolvimento e dá tempos de presente ao adversário. Saber defendê-lo vale mais do que saber aplicá-lo.
Cursos que tratam disso
Se quiser levar isso para a prática com material organizado:
Os princípios que substituem a teoria enquanto a teoria ainda não é necessária, e por que continuam servindo depois que você já sabe aberturas com nome.