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Bobby Fischer: vida, partidas e o match de Reykjavik 1972

Quem foi Bobby Fischer, a partida do século de 1956, como tirou o título de Spassky em 1972, por que o abandonou e o que deixou para o xadrez de hoje.

Por AcademiaTal7 min de leitura

Bobby Fischer (Chicago, 1943 – Reykjavik, 2008) foi o décimo primeiro campeão mundial de xadrez e o único americano que ganhou o título oficial. Conquistou-o em 1972 ao vencer Boris Spassky em Reykjavik, no match mais famoso da história, depois de uma carreira de menino prodígio que começou com «a partida do século» aos 13 anos. Três anos depois deixou o título sem jogar e quase sumiu da vida pública, mas seu jeito de jogar —claro, preciso, sem concessões— continua sendo um modelo.

Quem foi Bobby Fischer

Robert James Fischer nasceu em 9 de março de 1943 em Chicago e cresceu no Brooklyn, em Nova York. Aprendeu as regras ainda criança, com um jogo que a irmã tinha comprado, e poucos anos depois passava os dias nos clubes de Manhattan analisando partidas.

Ninguém da sua geração subiu tão rápido:

  • Aos 14 anos ganhou seu primeiro campeonato dos Estados Unidos, o de 1957/58. Acabou ganhando oito, um recorde.
  • No Interzonal de Portorož de 1958 classificou-se para o Torneio de Candidatos e obteve o título de grande mestre com 15 anos e meio, o mais jovem da história até então.
  • No campeonato americano de 1963/64 fez 11 pontos em 11, a única pontuação perfeita da história desse torneio.

Nos anos sessenta foi um dos melhores do mundo, mas esbarrava na escola soviética, que dominava os torneios de Candidatos, e brigava com os organizadores pelas condições de jogo. Várias vezes abandonou torneios ou simplesmente não compareceu. Em 1969 publicou Minhas 60 partidas memoráveis, um dos livros de xadrez mais lidos de todos os tempos.

A partida do século: Byrne – Fischer, 1956

Em 17 de outubro de 1956, no torneio Rosenwald de Nova York, Fischer tinha 13 anos e jogava de pretas contra Donald Byrne, um dos jogadores fortes do país. A abertura virou uma Grünfeld por transposição, e a posição pegou fogo logo. No lance 11 Fischer ofereceu um cavalo em a4; no 17 entregou a dama:

1.Cf3 Cf6 2.c4 g6 3.Cc3 Bg7 4.d4 O-O 5.Bf4 d5 6.Db3 dxc4 7.Dxc4 c6 8.e4 Cbd7 9.Td1 Cb6 10.Dc5 Bg4 11.Bg5 Ca4 12.Da3 Cxc3 13.bxc3 Cxe4 14.Bxe7 Db6 15.Bc4 Cxc3 16.Bc5 Tfe8+ 17.Rf1 Be6

Se as brancas tomam a dama com 18.Bxb6, as pretas dão uma série de xeques —com o cavalo e o bispo— que devolve mais material do que entregaram: torre, dois bispos e um peão pela dama, e o rei branco sem abrigo. A partida terminou em mate no lance 41, com todas as peças pretas coordenadas contra o rei solitário.

Hans Kmoch a chamou de «a partida do século» na revista Chess Review, e o nome pegou. Com os anos se apontou que Byrne não jogou o melhor —11.Bg5 é uma imprecisão—, mas isso não tira o que a torna instrutiva: um garoto de 13 anos viu que o valor das peças depende da atividade delas, não da tabela. É a mesma ideia do guia sobre o valor das peças. Para a abertura em si, o guia da Defesa Grünfeld mostra como as pretas atacam o centro com peças.

O caminho até Reykjavik: 1970 e 1971

O que Fischer fez entre 1970 e 1971 nunca se repetiu. Ganhou o Interzonal de Palma de Mallorca de 1970 com 18,5 pontos em 23, três pontos e meio à frente dos segundos colocados. Depois vieram os matches de Candidatos:

  • Contra Mark Taimanov, em Vancouver: 6 a 0.
  • Contra Bent Larsen, em Denver: de novo 6 a 0.
  • Contra o ex-campeão Tigran Petrosian, em Buenos Aires: 6,5 a 2,5.

Ganhar doze partidas seguidas contra candidatos ao título —jogadores entre os dez melhores do mundo— não tem equivalente na história desses matches. Na lista da FIDE de julho de 1972, Fischer chegou a 2785 de rating, 125 pontos acima de Spassky, o segundo. Para entender o que uma diferença dessas significa, vale o guia sobre como se calcula o rating.

O match do século: Fischer – Spassky, 1972

O match pelo campeonato mundial foi disputado em Reykjavik, na Islândia, no verão de 1972, em plena Guerra Fria: um americano sozinho contra o campeão da potência que tinha ganhado todos os títulos desde 1948. Começou com tudo contra. Fischer perdeu a primeira partida ao capturar um peão envenenado com o bispo em h2 e não compareceu à segunda por uma briga com as câmeras: 0 a 2.

Depois ganhou a terceira, e o match mudou de dono. A sexta é a mais lembrada. Fischer, que quase sempre abria com 1.e4, jogou 1.c4 e levou a partida para um Gambito da Dama Recusado:

1.c4 e6 2.Cf3 d5 3.d4 Cf6 4.Cc3 Be7 5.Bg5 O-O 6.e3 h6 7.Bh4 b6

É a variante Tartakower, uma das defesas favoritas de Spassky. Fischer venceu com um jogo posicional limpo: pressão sobre os peões centrais das pretas e um ataque na ala do rei que chegou sem sacrifícios espetaculares. Conta-se que Spassky aplaudiu no final. O guia do Gambito da Dama explica de onde saem essas estruturas.

Fischer venceu o match por 12,5 a 8,5 —sete vitórias, três derrotas e onze empates— e em 1º de setembro de 1972 tornou-se campeão mundial.

O título abandonado e os anos de silêncio

Fischer não jogou uma única partida oficial como campeão. Para defender o título contra Anatoly Karpov em 1975 exigiu um match de dez vitórias, sem contar os empates, e que conservasse o título se o placar chegasse a nove a nove. A FIDE aceitou a primeira condição, mas não a segunda; sem acordo, ele renunciou e Karpov foi proclamado campeão sem jogar.

Sumiu por quase vinte anos. Em 1992 reapareceu para jogar uma revanche não oficial contra Spassky na Iugoslávia, que estava sob embargo das Nações Unidas, e venceu por 10 vitórias a 5. O governo dos Estados Unidos o acusou de violar as sanções e emitiu um mandado de prisão. Viveu no exterior, foi detido no Japão em 2004 e no ano seguinte a Islândia lhe deu a cidadania. Morreu em Reykjavik em 17 de janeiro de 2008, aos 64 anos.

Sua vida fora do tabuleiro teve episódios muito sombrios, incluindo declarações públicas de ódio que ninguém deveria defender. Separar o jogador da pessoa não é justificá-la: é reconhecer que suas partidas continuam ensinando.

O estilo de Fischer

Se Tal é o exemplo do caos —veja o guia sobre Mikhail Tal—, Fischer é o da clareza. Suas partidas se entendem: cada lance tem um propósito e as peças vão para casas onde trabalham.

  • Repertório curto e profundo. De brancas, 1.e4 quase sempre; de pretas, a Siciliana Najdorf contra 1.e4 e a Índia do Rei ou a Grünfeld contra 1.d4. Conhecia essas posições melhor que ninguém.
  • Precisão técnica. Convertia vantagens pequenas com uma facilidade assustadora e jogava finais de bispo contra cavalo como um manual.
  • Jogar cada partida para ganhar. Detestava empates curtos; buscava posições em que o adversário tivesse algo a resolver a cada lance.
  • Preparação. Chegava às partidas tendo estudado a fundo as linhas e o adversário, numa época sem bancos de dados nem motores.

O que deixou para o xadrez de hoje

Além das partidas, Fischer mudou a forma como se joga:

  • O relógio com incremento. No fim dos anos oitenta patenteou um relógio que soma alguns segundos depois de cada lance; foi usado pela primeira vez na revanche de 1992. Hoje quase todos os torneios usam seu sistema, e é por isso que ninguém perde uma posição ganha só por ficar sem tempo.
  • O Chess960. Em 1996, em Buenos Aires, apresentou uma variante em que as peças da primeira fileira começam numa ordem sorteada —960 posições possíveis—, para que o talento vença a memória. Hoje ela tem seu próprio campeonato mundial.
  • O profissionalismo. Suas brigas por prêmios e condições dignas ajudaram o xadrez de elite a virar uma profissão.

Como estudar Fischer

O mais útil é reproduzir as partidas dele num tabuleiro, tapando o lance seguinte e tentando adivinhá-lo. Seus planos são claros o bastante para um jogador de clube acompanhar e bons o bastante para ensinar algo em cada partida. Se uma decisão não fizer sentido, você pode perguntar sobre aquele lance concreto em Pergunte ao GM.

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domingo, 1 de novembro17:00 – 17:45Horário de Buenos Aires (GMT-3)

Perguntas frequentes

Quem foi Bobby Fischer?
Foi um enxadrista americano, nascido em Chicago em 1943, que se tornou o décimo primeiro campeão mundial em 1972 ao vencer Boris Spassky em Reykjavik. É o único americano que ganhou o campeonato mundial oficial.
O que é a partida do século de Fischer?
É a partida que Fischer, aos 13 anos, ganhou de pretas contra Donald Byrne em Nova York, em 17 de outubro de 1956. Ficou famosa pelo sacrifício de dama 17...Be6, que lhe rendeu torre, dois bispos e um peão, e terminou em mate no lance 41.
Qual foi o placar de Fischer x Spassky em 1972?
Fischer venceu por 12,5 a 8,5, com sete vitórias, três derrotas e onze empates, apesar de ter perdido a primeira partida e não ter comparecido à segunda. O match foi disputado em Reykjavik, na Islândia, no verão de 1972.
Por que Fischer deixou de ser campeão mundial?
Em 1975 ele não defendeu o título contra Anatoly Karpov porque a FIDE não aceitou todas as suas condições para o match, e Karpov foi proclamado campeão sem jogar. Fischer nunca mais disputou uma partida oficial.
O que Bobby Fischer inventou?
O relógio com incremento, que soma alguns segundos depois de cada lance e que ele patenteou no fim dos anos oitenta, e a variante de posição inicial sorteada que hoje se chama Chess960, apresentada em Buenos Aires em 1996.

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