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Alexei Shirov: vida, estilo e o lance Bh3 contra Topalov

Quem é Alexei Shirov, como chegou a desafiante ao título mundial, por que seu 47...Bh3 contra Topalov é um dos lances mais famosos e o que seu estilo ensina.

Por AcademiaTal8 min de leitura

Alexei Shirov (Riga, 1972) é um grande mestre letão e espanhol, campeão mundial sub-16 em 1988, número dois do mundo em 1994 e um dos atacantes mais criativos das últimas décadas. Venceu um match contra Vladimir Kramnik para ser o desafiante de Garry Kasparov, chegou à final do Mundial da FIDE de 2000 e jogou em Linares 1998 um dos lances mais famosos da história do xadrez: 47...Bh3!! contra Veselin Topalov.

Quem é Alexei Shirov

Shirov nasceu em 4 de julho de 1972 em Riga, a capital da Letônia, que na época fazia parte da União Soviética. É a mesma cidade de Mikhail Tal, e isso não é um detalhe: Shirov cresceu na escola de xadrez de Riga, é considerado discípulo do oitavo campeão mundial e, entre os jogadores de elite da sua geração, é o que mais se parece com ele no tabuleiro. Se você quiser conhecer o mestre antes do aluno, temos o guia sobre Mikhail Tal.

Depois do fim da União Soviética, jogou pela Letônia. Em meados dos anos 1990 se mudou para a Espanha, obteve a cidadania e representou a federação espanhola de 1995 a 2011. Voltou a jogar pela Letônia entre 2011 e 2018 e, desde 2018, representa novamente a Espanha. Por isso às vezes ele aparece como espanhol e às vezes como letão: as duas coisas são verdade, dependendo do ano.

De Riga à elite: sub-16, grande mestre e número dois

Sua ascensão foi rápida. Em 1988 venceu o Campeonato Mundial sub-16 e em 1990 recebeu o título de grande mestre, aos 18 anos. Na lista da FIDE de janeiro de 1994 já era o número dois do mundo, com 2715, atrás apenas de Kasparov.

Ficou na elite por mais de quinze anos. Seu rating mais alto, 2755, foi alcançado em janeiro de 2008, aos 35 anos, numa época em que esse número o colocava entre os melhores do mundo. Durante duas décadas jogou os torneios mais fortes do circuito, entre eles Linares e Wijk aan Zee, e foi por anos um dos jogadores mais temidos de brancas e um dos mais difíceis de neutralizar de pretas.

Cazorla 1998: o desafiante que nunca jogou o match

O capítulo mais estranho da sua carreira é também o mais importante. Em 1998, Kasparov tinha o título clássico fora da FIDE, e foi organizado um match de candidatos para escolher seu desafiante. Viswanathan Anand não quis jogar e a vaga ficou com Shirov, que era o seguinte no ranking daquela organização.

O match foi disputado em Cazorla, na Espanha, entre maio e junho de 1998, contra Vladimir Kramnik, que era o favorito. Shirov venceu por 5,5 a 3,5, com duas vitórias, sete empates e nenhuma derrota. Em tese, era o próximo desafiante de Kasparov.

O match pelo título nunca aconteceu. Kasparov, Shirov e os organizadores não chegaram a um acordo, o patrocínio caiu e em 1999 Kasparov começou a negociar com outros adversários. Em 2000 acabou defendendo o título em Londres contra Kramnik, justamente o jogador que Shirov tinha vencido, e o perdeu. Shirov sempre sustentou que aquele match não tinha legitimidade e que o desafiante era ele. Para muitos fãs, é uma das grandes injustiças esportivas da história do xadrez.

Teerã 2000: a final contra Anand

No mesmo ano ele teve outra chance. O Campeonato Mundial da FIDE era então disputado em eliminatórias, com dezenas de jogadores e matches curtos, um formato que castiga qualquer dia ruim. Shirov eliminou adversários de primeiro nível: Alexander Onischuk, Mikhail Gurevich, Boris Gelfand, Evgeny Bareev e Alexander Grischuk.

A final contra Anand foi jogada em Teerã, em dezembro de 2000, e o indiano dominou: venceu por 3,5 a 0,5, com três vitórias e um empate, e o match terminou antes de todas as partidas serem jogadas. Shirov ficou mais uma vez a um passo do título, desta vez sem nenhuma polêmica.

47...Bh3!!: o lance mais famoso da sua carreira

Se há uma posição que todo enxadrista associa a Shirov, é esta. Linares, 1998, Topalov de brancas e Shirov de pretas. Eles chegam a um final de bispos de cores opostas: as pretas têm dois peões a mais, mas esse tipo de final é famoso por terminar empatado mesmo com peões a menos, porque o bispo do lado mais fraco bloqueia as casas de uma cor e o rei defende as da outra.

Topalov–Shirov, Linares 1998. Jogam as pretas: parece empate.

O problema das pretas é o rei branco, que chega a tempo aos peões da ala do rei e de lá pode atravessar para frear tudo. Qualquer lance normal, como reposicionar o bispo ou avançar o rei devagar, dá às brancas o tempo de que precisam para montar a fortaleza.

Shirov jogou 47...Bh3!!. O bispo é entregue numa casa onde um peão pode capturá-lo, e a ideia é puramente de tempos: se as brancas capturam, o rei preto entra por f5 e e4 antes que o rei branco consiga fechar o caminho, enquanto os peões a e d ficam longe demais um do outro para que um só bispo os pare. A partida seguiu 48.gxh3 Rf5 49.Rf2 Re4 50.Bxf6 d4 51.Be7 Rd3 52.Bc5 Rc4 53.Be7 Rb3, e Topalov abandonou: ou o peão a coroa, ou o peão d custa o bispo.

O que o torna famoso não é a dificuldade do cálculo final, e sim a ideia: numa posição em que todos procuravam como melhorar as peças, Shirov percebeu que o que sobrava era uma peça e o que faltava era um tempo. Tim Krabbé o colocou em segundo lugar na sua lista dos 110 lances mais fantásticos da história, e ele ainda é usado como exercício para mostrar que, nos finais, a contagem de lances vale mais que o material. Para treinar esse jeito de pensar, o guia sobre como calcular no xadrez explica como ordenar os lances candidatos.

O estilo de Shirov: fogo no tabuleiro

Seus livros de partidas comentadas se chamam Fire on Board (fogo no tabuleiro), e o título descreve bem seu xadrez. O primeiro volume reúne suas melhores partidas de juventude e o segundo cobre de 1997 a 2004. Estão entre os livros de partidas próprias mais recomendados para quem quer aprender a atacar, justamente porque explicam o que ele pensava na hora, e não só o que a análise disse depois.

Algumas marcas do seu estilo:

  • Iniciativa antes do material. Como Tal, entrega peões e qualidade com facilidade se em troca consegue atividade e casas.
  • Aberturas agudas. Procura posições desequilibradas desde os primeiros lances, com as duas cores, mesmo que isso signifique correr riscos.
  • Teoria própria. Seu nome está no gambito Shabalov-Shirov contra a Semi-Eslava, em que as brancas avançam o peão g antes de as pretas rocarem.
1.d4 d5 2.c4 c6 3.Cc3 Cf6 4.Cf3 e6 5.e3 Cbd7 6.Dc2 Bd6 7.g4

O peão em g4 ameaça expulsar o cavalo de f6, que defende e4 e o roque pequeno. Se as pretas o capturam, as brancas ganham tempo e abrem a coluna g contra o rei. É um exemplo claro de como Shirov pensa: um peão é um preço razoável por um ataque.

  • Criatividade nos finais. O Bh3 não é uma exceção. Shirov é um jogador de finais muito mais forte do que sua fama de atacante sugere, e gosta de resolvê-los com ideias de tempo e de ruptura em vez de manobras lentas.

O que se aprende com Shirov

Shirov não é um modelo para copiar lance a lance: seu estilo exige um cálculo que a maioria dos jogadores de clube não tem. Mas suas partidas trazem lições que servem em qualquer nível.

A primeira é contar tempos, não só material. O Bh3 é o exemplo extremo, mas a mesma pergunta, chego antes do adversário?, decide corridas de peões, ataques em alas opostas e finais de reis. A segunda é procurar o lance que quebra a estrutura quando a posição parece fechada: um sacrifício de peão ou de qualidade muitas vezes vale mais do que três lances de manobra. A terceira é comentar as próprias partidas por escrito, como ele fez em Fire on Board: isso obriga a ser honesto sobre o que se pensou na hora.

Se você se interessa pelo lado tático do seu jogo, o guia de táticas de xadrez revisa os temas um por um, e o da Defesa Siciliana explica as aberturas em que Shirov fez boa parte dos seus ataques.

Shirov na AcademiaTal

Em Criatividade e cálculo com Alexei Shirov, o próprio Shirov analisa duas das suas melhores partidas, uma Francesa em que explica como transformar uma vantagem estratégica e um ataque na Siciliana Dragão, além do célebre final contra Topalov, com o lance 47...Bh3 explicado por quem o jogou. As aulas são em espanhol com legendas em português.

Para vê-lo ao lado de outros grandes atacantes, Mestres da combinação: de Morphy a Shirov presta homenagem a ele junto com Morphy, Steinitz, Tal, Fischer e Kasparov, e Xadrez Magistral: Ataque, Aberturas e Finais tem uma aula sobre o jogo criativo de Tal e Shirov. Os três estão incluídos nas assinaturas que liberam o catálogo inteiro.

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Perguntas frequentes

Quem é Alexei Shirov?
É um grande mestre nascido em Riga em 1972, campeão mundial sub-16 em 1988 e número dois do mundo em 1994. Representou a Letônia e a Espanha, foi finalista do Mundial da FIDE de 2000 e é um dos jogadores mais agressivos e criativos da sua geração.
Por que o lance Bh3 de Shirov contra Topalov é tão famoso?
Porque em Linares 1998, num final de bispos de cores opostas que parecia empate, Shirov entregou o bispo com 47...Bh3 para abrir caminho ao rei e vencer com os peões passados. Tim Krabbé o colocou em segundo lugar na sua lista dos lances mais fantásticos da história.
Shirov foi campeão mundial?
Não. Em 1998 venceu um match contra Vladimir Kramnik por 5,5 a 3,5 para ser o desafiante de Kasparov, mas esse match nunca foi disputado por falta de patrocínio. Em 2000 chegou à final do Mundial da FIDE e perdeu para Viswanathan Anand.
Shirov foi aluno de Mikhail Tal?
Ele se formou em Riga, a cidade de Tal, e é considerado seu discípulo. Entre os jogadores de elite dos anos 1990, seu estilo de ataque e de sacrifícios é o que mais se parece com o do Mago de Riga.

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