A Defesa Siciliana é a resposta 1...c5 a 1.e4: em vez de copiar o lance das brancas, as pretas controlam d4 com um peão lateral e buscam desde o primeiro lance uma posição desequilibrada. É a defesa mais jogada e mais analisada contra 1.e4, e a que costuma ser considerada a que mais chances de vitória dá às pretas.
1.e4 c5
A história é longa: o italiano Giulio Polerio já a analisava num manuscrito de 1594, e o nome em inglês foi fixado por Jacob Sarratt em 1813. Durante boa parte do século XIX ela teve má fama —Steinitz, o primeiro campeão mundial, preferia 1...e5—, e foi reabilitada em meados do século XX por jogadores como Botvinnik, Bronstein e Miguel Najdorf. Fischer e Kasparov fizeram dela, depois, sua arma principal de pretas.
Este artigo é o mapa: o que cada lado busca e quais são as grandes famílias de variantes, para você saber onde está pisando. A linha mais famosa de todas tem seu próprio guia, o da Siciliana Najdorf.
A ideia numa frase
As pretas trocam um peão da ala por um do centro, e aceitam ficar atrás no desenvolvimento em troca de uma estrutura que as favorece a longo prazo. Dá para ver na linha principal, a Siciliana Aberta:
1.e4 c5 2.Cf3 d6 3.d4 cxd4 4.Cxd4
Depois da troca, as pretas têm dois peões centrais —d6 e e7— contra um só das brancas, e a coluna c semiaberta para as torres. As brancas, em compensação, têm mais espaço, um cavalo bem centralizado em d4 e um desenvolvimento mais rápido. Quase tudo o que acontece na Siciliana sai daí: as brancas precisam fazer algo com a vantagem antes que ela evapore, e as pretas precisam sobreviver a isso para chegar a um meio-jogo —ou a um final— em que a estrutura conte.
O que cada lado busca
As pretas:
Contrajogo na ala da dama: ...a6, ...b5, as torres na coluna c.
O sacrifício de qualidade em c3 (...Txc3), um tema que aparece em quase todas as variantes para desmontar o roque ou a estrutura das brancas.
Disputar d5 com ...e6 ou com ...e5, conforme a variante.
As brancas:
Aproveitar o desenvolvimento e o espaço: avanços de peões na ala do rei (f4, g4), muitas vezes com roques opostos.
Golpes táticos no centro enquanto o rei preto ainda está em e8: sacrifícios em d5, e6 ou b5.
Se as pretas jogam ...e5, instalar um cavalo em d5.
A Siciliana Aberta: o segundo lance das pretas decide
Contra 2.Cf3 as pretas escolhem entre três lances, e cada um abre uma família diferente.
Com 2...d6: Najdorf, Dragão, Clássica e Scheveningen
É a família maior. A Najdorf, com 1.e4 c5 2.Cf3 d6 3.d4 cxd4 4.Cxd4 Cf6 5.Cc3 a6, é a rainha da Siciliana: 5...a6 controla b5 e deixa a decisão sobre o centro para depois. Tem seis sistemas principais, e o guia dela explica cada um.
O Dragão coloca o bispo em g7, mirando pela grande diagonal em d4 e b2. A resposta mais perigosa é o Ataque Iugoslavo:
As brancas fazem o roque grande, empurram h4-h5 para abrir a coluna h e buscam trocar o bispo de g7 com Bh6. As pretas atacam na outra ala com ...Tc8, ...Ce5 e, muitas vezes, ...Txc3. É uma corrida: vence quem chega primeiro, e a teoria é muito forçada.
A Clássica, com 5...Cc6, convida o Ataque Richter-Rauzer (6.Bg5), que crava o cavalo e tira das pretas a opção do Dragão. A Scheveningen, com 5...e6, monta um centro pequeno e firme com os peões em d6 e e6; o teste mais duro é o Ataque Keres, 6.g4, que expulsa o cavalo de f6 com g5.
Com 2...Cc6: Sveshnikov, Kalashnikov e Dragão Acelerado
A Sveshnikov é a Siciliana dos princípios quebrados. As pretas jogam ...e5, aceitam um peão atrasado em d6 e um buraco em d5, e em troca ganham tempo e atividade:
Os peões dobrados em f parecem feios e não são: com ...f5 as pretas atacam o centro branco, ficam com o par de bispos e o cavalo de a3 fica longe do jogo. As brancas apostam tudo em d5. A Kalashnikov (4...e5 5.Cb5 d6) usa a mesma estrutura com outra ordem de lances.
O Dragão Acelerado (4...g6) coloca o bispo em g7 sem passar por ...d6, e por isso pode romper com ...d5 num lance só. A resposta mais séria é o bloqueio Maróczy, 5.c4: dois peões em c4 e e4 que controlam d5 e deixam as pretas com pouco espaço e muita paciência pela frente.
Com 2...e6: Taimanov e Kan
São as Sicilianas flexíveis. As pretas ainda não definem para onde vai o cavalo do rei nem o peão d, e adaptam o esquema ao que as brancas fazem. A Taimanov desenvolve primeiro o cavalo da dama:
1.e4 c5 2.Cf3 e6 3.d4 cxd4 4.Cxd4 Cc6 5.Cc3 Dc7
A dama em c7 controla e5, as pretas seguem com ...a6 e escolhem depois entre ...Cf6, ...b5 ou uma estrutura de Scheveningen. A Kan —que muitos livros chamam de Paulsen— joga 4...a6 e deixa ainda mais opções abertas: pode terminar numa formação de ouriço, com os peões na sexta fileira esperando o momento de romper com ...b5 ou ...d5.
Pedem menos teoria forçada do que o Dragão ou a Najdorf e se entendem mais por planos do que por lances. Por isso são uma boa porta de entrada para a Siciliana.
As antissicilianas: quando as brancas não abrem
Muitas brancas não querem discutir a teoria da Aberta e escolhem outro caminho no segundo ou no terceiro lance. No nível de clube elas aparecem o tempo todo, então qualquer repertório com a Siciliana precisa de uma resposta para cada uma.
Alapin (2.c3). Prepara d4 para recapturar com o peão e ficar com um centro de dois peões. As pretas respondem 2...Cf6 (depois de 3.e5 Cd5 o cavalo incomoda do centro) ou 2...d5, em que a dama que recaptura em d5 não pode ser atacada por um cavalo em c3, porque o peão ocupa essa casa.
Rossolimo (2.Cf3 Cc6 3.Bb5) e Moscou (2.Cf3 d6 3.Bb5+). O bispo sai antes de o centro se abrir; no Rossolimo as brancas costumam trocá-lo em c6 para dobrar os peões pretos. Partidas lentas, de manobra, muito frequentes na elite.
Fechada (2.Cc3). As brancas jogam g3, Bg2, d3 e muitas vezes f4, com um ataque lento na ala do rei. Foi uma das armas de Boris Spassky.
Grand Prix (2.f4, ou 2.Cc3 e 3.f4). A versão direta: f4-f5 e ataque ao roque.
Gambito Smith-Morra (2.d4 cxd4 3.c3). Um peão em troca de desenvolvimento:
1.e4 c5 2.d4 cxd4 3.c3 dxc3 4.Cxc3
As brancas seguem com Cf3, Bc4, roque e as torres em c1 e d1, mirando as colunas abertas. Com uma defesa precisa as pretas ficam bem, mas em partidas rápidas o desenvolvimento branco vence muitíssimas partidas. Também dá para recusá-lo, com 3...Cf6 ou 3...d3.
Os erros típicos
Preparar só a Aberta. Estudar dez lances de Najdorf e não ter nada contra 2.c3 ou contra o Morra é o erro mais comum de quem começa com a Siciliana: num torneio de clube você vai ver mais antissicilianas do que linhas principais.
Atrasar o contrajogo. Se as pretas não fazem nada na ala da dama, o ataque branco na outra ala chega sozinho.
Deixar o rei no centro um lance a mais. As pretas rocam tarde em muitas variantes, e os sacrifícios em d5, e6 ou b5 existem justamente para punir isso.
Com ...e5, entregar d5 sem nada em troca. Na Sveshnikov e na Kalashnikov o buraco se paga com atividade; se a atividade não está lá, um cavalo branco em d5 decide a partida.
De brancas, jogar a Aberta sem atacar. A vantagem de desenvolvimento dura pouco. Se as brancas jogam com calma, a estrutura que sobra favorece as pretas.
Qual Siciliana escolher?
Depende do seu estilo e de quanto tempo você tem para estudar:
Se você gosta de calcular e a teoria não te assusta: a Najdorf ou o Dragão. São as mais ambiciosas e as que mais exigem preparação.
Se você gosta de estruturas concretas: a Sveshnikov. As fraquezas são sempre as mesmas e os planos se repetem de partida em partida.
Se você quer jogar a Siciliana sem viver na teoria: a Taimanov ou a Kan, que se adaptam ao que as brancas fizerem.
Uma Siciliana por vez. Primeiro se escolhe o segundo lance —2...d6, 2...Cc6 ou 2...e6—, porque isso decide quais antissicilianas você vai enfrentar: com 2...d6 aparece o Moscou, com 2...Cc6 o Rossolimo, e contra 2...e6 muitas brancas escolhem um esquema de Ataque Índio do Rei com d3, g3 e Bg2. Depois se prepara uma resposta para a Alapin e para o Morra, que valem para todas.
O que mais rende não é decorar, e sim entender as estruturas: o centro pequeno da Scheveningen, o bloqueio Maróczy, o buraco de d5 na Sveshnikov, a corrida de ataques do Dragão. Com isso, a maioria dos lances sai sozinha, e o que não sair você vai descobrir revisando suas partidas. Para isso não é preciso decorar páginas de teoria.
No catálogo há material para quase todas as famílias. Siciliana Najdorf a fundo dedica uma aula a cada um dos seis sistemas da Najdorf. Xadrez Magistral: Ataque, Aberturas e Finais tem uma aula sobre os prós e contras da Sveshnikov, e em Criatividade e cálculo com Alexei Shirov o próprio Shirov explica o ataque numa Siciliana Dragão. Mestres em Ação tem uma aula de Siciliana Paulsen, e as Sicilianas com ...e6 e com ...e5 têm aulas próprias em Estratégia, sacrifícios e aberturas, em Avaliação, estruturas e ataque e em Repertório e Estratégia. As aulas são em espanhol com legendas em português. E se você quer ver aberturas trabalhadas ao vivo, toda semana há uma aula em grupo dedicada a elas.
É a resposta 1...c5 a 1.e4. Em vez de copiar o lance das brancas, as pretas controlam d4 com um peão lateral e buscam uma posição desequilibrada: na linha principal trocam o peão c pelo peão d das brancas e ficam com mais peões no centro.
A Siciliana é boa para iniciantes?
Costuma não ser a melhor primeira abertura, porque quase todas as suas linhas pedem teoria e cálculo concreto. Se ela te atrai, vale começar por um sistema flexível como a Taimanov ou a Kan, que se aprendem mais por planos do que por lances exatos.
Qual é a melhor variante da Siciliana?
Não existe uma melhor para todos. A Najdorf é a mais jogada na elite e a mais teórica; o Dragão e a Sveshnikov levam a um jogo muito concreto, e a Taimanov e a Kan são mais flexíveis. A escolha depende do estilo e de quanto tempo você tem para estudar.
O que é a Siciliana Aberta?
É a linha em que as brancas jogam 2.Cf3 e 3.d4 e abrem o centro trocando peões. As brancas ganham desenvolvimento e espaço; as pretas, a coluna c semiaberta e um peão central a mais para o final.
O que jogar de brancas contra a Siciliana?
Se você gosta de teoria e de atacar, a Aberta com 2.Cf3 e 3.d4. Se prefere evitá-la, a Alapin (2.c3), o Rossolimo (2.Cf3 Cc6 3.Bb5) e o Gambito Smith-Morra (2.d4 cxd4 3.c3) dão planos claros com muito menos teoria.
Cursos que tratam disso
Se quiser levar isso para a prática com material organizado:
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Por GM Andrés Rodríguez Vila, GM Diego Flores e IM Jorge Rosito
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O que é o Gambito da Dama, por que quase nunca custa um peão, como as pretas respondem e os planos do Aceito, da Ortodoxa, da Eslava e da Variante das Trocas.
O que a Catalã busca, por que o bispo de g2 é a chave, como se joga contra ...dxc4, ...b5, ...c5 e a Catalã Fechada, e para quem esta abertura é indicada.