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Precisa decorar aberturas? O que fazer no lugar disso

Por que a memória rende tão pouco abaixo de 2000 pontos, o que realmente se estuda de uma abertura e como se preparar para o lance em que o adversário sai do livro.

Por AcademiaTal8 min de leitura

A imagem popular do enxadrista é a de alguém que decorou milhares de variantes. É verdade para o xadrez profissional e enganosa para todos os demais: abaixo de 2000 pontos, a memória de aberturas é um dos usos de tempo que menos rendem.

O dado que resolve a discussão

Olhe as suas últimas vinte partidas e conte em que lance o adversário fez algo que não está na teoria principal.

A resposta quase sempre fica entre o lance quatro e o oito.

Isso significa que a teoria do lance quinze — a mais difícil de decorar e a que mais rápido se esquece — quase nunca aparece. E que as horas colocadas ali não defendem nenhuma partida.

O que acontece quando você decora sem entender

Chega-se ao lance nove perfeito, o adversário joga outra coisa, e ali acabou o roteiro. O problema não é aquele lance: é que não existe critério para o décimo, porque nunca se aprendeu o que a posição buscava.

O sintoma clássico: partidas em que a abertura «saiu bem» e no lance dezesseis não se sabe o que fazer. A abertura não saiu bem: saiu decorada.

O que se estuda de verdade numa abertura

Nesta ordem:

1. A ideia. Uma frase. «A Italiana busca desenvolvimento rápido e pressão sobre f7.» «O Londres monta uma estrutura sólida e ataca pela ala do rei.» Se você não consegue dizer numa frase, ainda não entendeu.

2. A estrutura de peões que ela produz. É o que determina todo o resto: onde estão as colunas abertas, que casas ficam fracas, para que lado se joga.

3. Para onde vão as peças. Em cada abertura, cada peça tem duas ou três casas naturais. Sabê-las resolve a maioria dos lances sem calcular nada.

4. Qual é a ruptura-chave. Quase toda abertura tem um avanço de peão que libera a posição — c5, d5, e5, f5, conforme o caso. Reconhecer quando fazê-lo é metade da abertura.

5. Os primeiros seis a oito lances da linha principal. Sim, alguma memória. Pouca.

6. O que as pessoas jogam de verdade, que quase nunca é a linha principal. Dez partidas rápidas dizem isso mais rápido do que qualquer livro.

O teste de se você entendeu

Pegue a posição típica da sua abertura depois do lance dez e responda sem olhar nada:

  • Qual é a minha pior peça e para onde ela quer ir?
  • Que ruptura estou preparando?
  • Para que ala eu jogo?
  • O que o adversário está tentando fazer?

Se as quatro respostas saírem, você tem a abertura. Se não saírem, você sabe lances.

Quando decorar é o certo

Há três casos concretos, e são poucos:

As armadilhas e refutações curtas. Se a sua abertura tem uma linha em que o adversário pode perder rápido, ou em que você pode, esses seis lances precisam ser exatos. São poucos e se aprendem uma vez.

As linhas forçadas. Algumas variantes são forçadas por oito ou dez lances: ali não há critério possível, é preciso saber. Também são poucas.

Acima de 2000. Aí sim, o adversário prepara, e a memória começa a pesar.

O que fazer quando te tiram do livro

É o mais frequente e quase ninguém treina. Quando o adversário joga algo estranho no lance cinco:

Não procure o castigo imediato. O lance estranho quase nunca perde à força. Caçar a refutação é como se perde uma posição confortável.

Pergunte o que ele enfraqueceu. Todo lance que não desenvolve enfraquece algo: uma casa, um peão, o rei, um tempo. É isso que se aponta a explorar, sem pressa.

Volte aos princípios. Desenvolvimento, centro, roque. Contra um lance estranho, jogar bem basta.

E conte tempos. Se o adversário gastou dois lances em algo que não desenvolve, você tem dois lances de vantagem. Gaste-os em desenvolvimento, não num ataque prematuro.

Como montar um repertório que não precisa ser decorado

Um repertório bem montado se lembra quase sozinho, e o truque não está na memória e sim na escolha: aberturas que se pareçam entre si. Se com as brancas você joga sistemas em que o bispo vai para g2 e com as pretas também, você não está decorando duas coisas: está aprendendo uma ideia e usando-a duas vezes.

Três critérios para escolher, nesta ordem:

Que as estruturas se repitam. É o que faz a experiência de uma partida servir para a seguinte. Cem partidas com a mesma estrutura ensinam mais do que trezentas com estruturas diferentes.

Que não dependam da colaboração do adversário. Uma abertura que ganha rápido quando o outro erra e não tem plano quando o outro joga bem é uma armadilha, não um repertório.

Que você goste. Parece um critério fraco e não é: você vai jogar essas posições centenas de vezes, e uma posição que entedia é jogada mal porque é pouco pensada.

Com isso, um repertório completo são quatro ou cinco linhas — uma contra 1.e4, uma contra 1.d4, um sistema com as brancas e duas respostas ao que for estranho — e nenhuma precisa de mais de dez lances escritos.

Quantos lances é preciso saber de verdade

A pergunta tem uma resposta bem concreta e bem mais curta do que se teme:

Até 1400: zero linhas decoradas. Os três princípios — centro, desenvolvimento, roque — cobrem tudo, e as partidas se decidem muito antes de a teoria importar.

De 1400 a 1800: entre seis e oito lances por linha, e saber a ideia de cada uma: para onde vai cada peça, que estrutura busca, onde está o jogo. Oito lances é o que basta para chegar a uma posição conhecida.

De 1800 a 2100: dez ou doze lances nas linhas principais, e mais detalhe nas variantes agudas que você escolheu. Aqui a ordem de lances começa a importar.

Acima disso: aí sim há trabalho de memória de verdade, e aí sim vale uma base de dados.

Posto em tempo: para quase todo mundo que lê isto, o repertório completo são quatro ou cinco horas de trabalho, não quatro meses. O que leva tempo não é aprendê-lo, é jogá-lo até entendê-lo.

O que fazer depois de cada partida com a sua abertura

Este é o método que substitui decorar, e são trinta minutos por semana:

Anote o lance em que você saiu do conhecido. Não o lance em que errou: o lance em que já não soube o que vinha. Quase sempre é bem antes do que você imagina.

Veja o que se joga ali. Uma base de dados gratuita basta. Não procure «o melhor lance»: procure qual lance é o mais jogado e por que encaixa no plano da abertura.

Escreva no seu próprio arquivo. Um documento por abertura, com as linhas que apareceram contra você e não as que um livro considera importantes. Um repertório construído assim tem exatamente as linhas que seus adversários jogam.

Releia de vez em quando, cinco minutos. Não estudando: lendo. Basta.

Depois de três meses assim, o repertório está montado e é seu, no sentido literal de que você o escreveu a partir das suas próprias partidas. Isso se lembra de um jeito que um arquivo baixado da internet nunca se lembra.

Resumindo

Estudar aberturas é útil. Decorá-las, quase nunca. A diferença é que a primeira coisa dá critério para todas as posições que aparecerem e a segunda dá um roteiro que acaba no lance nove.

E o mais importante: uma abertura que você entende ensina xadrez. Uma que você decorou só ensina aquela abertura, até esquecer.

Perguntas relacionadas

O que faço se o adversário jogar algo que não conheço no lance três? Os três princípios: ocupe ou dispute o centro, desenvolva uma peça menor, e roque. Com isso você sai bem de praticamente qualquer coisa estranha, e as coisas estranhas quase sempre são objetivamente piores do que o normal.

É melhor jogar sempre a mesma abertura? Sim, até bem alto. A repetição é o que transforma uma abertura em conhecimento, e jogar cinco coisas diferentes garante não entender nenhuma. A variedade se acrescenta quando a primeira já está entendida.

Servem as armadilhas de abertura? Ganham partidas de quem não as conhece e não ensinam nada. O problema não é serem desonestas — não são — e sim que, quando o adversário responde bem, deixam você numa posição pior do que a normal, e sem plano.

Quando começo a usar uma base de dados? Quando você conseguir nomear o lance exato em que o seu conhecimento acaba. Antes disso, a base de dados lhe dá mil linhas para um problema que você ainda não tem.

Perguntas relacionadas

Quanta teoria sabe um jogador de 1600? Bem menos do que se imagina: seis ou oito lances por linha, e sobretudo a ideia. O que separa um 1600 de um 1300 quase nunca é teoria de abertura, e sim o que ele faz com a posição que a abertura lhe deixou.

Posso aprender uma abertura só assistindo a partidas? Sim, e é uma das melhores formas. Dez partidas de mestre com a mesma abertura dão a ideia inteira — para onde vão as peças, onde está o jogo, como é o final típico — que é exatamente o que um arquivo de variantes não dá.

O que faço se me tirarem do livro no lance cinco? Voltar aos princípios e respirar: centro, desenvolvimento, roque. Sair do livro cedo quase sempre significa que o adversário jogou algo objetivamente pior, então a posição é boa mesmo sem ser conhecida.

Serve preparar contra um adversário concreto? Em nível de clube, quase nunca, e consome tempo que rende mais em outro lugar. Começa a valer quando você conhece os seus adversários de cor, que é em torneios fechados e em ligas por equipes.

Perguntas frequentes

É preciso decorar variantes de abertura?
Abaixo de 2000 pontos, quase nada. A maioria dos adversários sai da teoria entre o lance quatro e o oito, então o que decide não é quanto você decorou e sim se entende o que a sua posição busca.
Quantos lances de teoria é preciso saber?
De seis a oito da linha principal bastam e sobram na maioria das faixas. O que vale conhecer a fundo são os planos de meio-jogo que saem dessa estrutura, que é onde a partida se joga.
O que faço quando o adversário joga algo que eu não conheço?
Voltar aos princípios: desenvolvimento, centro, rei seguro, e perguntar o que o lance estranho dele enfraqueceu. Sair do livro cedo quase sempre favorece quem entende a posição, não quem decorou.

Cursos que tratam disso

Se quiser levar isso para a prática com material organizado:

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