
A nova lógica do xadrez: avaliação, meio-jogo e endgame
Quatro aulas e oito horas de formação para entender a avaliação moderna, interpretar o engine, encarar posições complexas e melhorar a técnica de endgame.
ARPor GM Andrés Rodríguez
O que separa de verdade essas duas faixas, quanto tempo leva para atravessá-las e o que precisa mudar no treino para isso acontecer.
Quatrocentos pontos parecem muito e pouco ao mesmo tempo. É um salto real — o jogador de 1600 ganha quase sempre do de 1200 — e, ainda assim, se atravessa com mudanças bem concretas, não com um talento novo.
A resposta curta: entre seis meses e um ano e meio, com quatro ou cinco horas semanais bem dirigidas. A diferença entre os seis meses e os dezoito quase nunca é o tempo dedicado: é o que se treina.
Vale dizer porque quase todo mundo imagina errado. A diferença principal não é o quanto calculam. É isto:
O de 1200 dá material. Não em todas as partidas, mas em uma a cada duas ou três. Uma peça dada, um peão que cai num xeque intermediário, um mate do corredor. Nessa faixa, mais da metade das partidas se decide antes de existir qualquer coisa parecida com estratégia.
O de 1600 quase nunca dá nada, e ainda converte. Quando chega a um final com um peão a mais, ganha. Quando ganha uma peça, não complica: troca tudo e termina.
Ou seja: o salto de 1200 para 1600 é sobretudo um salto de confiabilidade, não de brilho.
A fase mais ingrata e a que mais pontos dá.
No fim desta fase, a quantidade de partidas perdidas por um único lance tem que ter caído pela metade. Se não caiu, não adianta seguir: é para ficar aqui.
É onde está o material que mais rápido rende e o que quase ninguém estuda.
Só agora a estratégia faz sentido, porque já existe uma partida que chega até lá.
Estudar aberturas além do lance oito. Nessa faixa, quase nenhum adversário joga a teoria do nono lance. O que serve é entender o que a sua abertura busca: centro, desenvolvimento, para onde vai o rei.
Jogar exclusivamente rápidas. Servem para praticar padrões, não para instalá-los.
Perseguir o rating dia a dia. Ele sobe e desce trinta pontos só de ruído. Olhe uma vez por mês.
Estas três coisas se mexem antes do número:
Se essas três se mexerem, o rating vem. Costuma vir em bloco, depois de um platô longo, e é por isso que tanta gente desiste bem antes.
O salto de 1200 para 1600 não é contínuo: são quatro degraus bem identificáveis, e saber em qual você está evita trabalhar o seguinte antes da hora.
1200 a 1300 — parar de dar peças. Quase todas as suas derrotas ainda são peças perdidas num lance. A única coisa que importa aqui é a rotina de conferência antes de mover e a tática diária. Nada mais move nada. É o degrau mais rápido de todos: seis a oito semanas de prática constante.
1300 a 1400 — ver a tática do adversário. Você já não dá peças simples e agora perde por combinações de dois ou três lances que não viu chegar. O que resolve é uma mudança de foco: olhar a posição do lado do adversário antes de cada lance, perguntando «se eu fosse ele, o que iria querer fazer?».
1400 a 1500 — sair bem da abertura. Aqui começa a doer não ter ideia do que fazer no lance dez. Não é preciso teoria: são precisos os princípios e um arquivo próprio de seis a oito lances por linha. Este degrau é o mais fácil de comprar com estudo.
1500 a 1600 — converter. O último degrau é quase todo técnica: finais elementares, saber trocar no momento certo, não perder posições ganhas. É o que mais gente adia e o que mais meios pontos entrega.
Se você consegue dizer em qual dos quatro está, já economizou metade do tempo, porque o erro mais caro deste trecho é trabalhar o degrau quatro estando no um.
Quase todas as plataformas dão esses números de graça e quase ninguém os olha, embora sejam um diagnóstico bastante bom:
Aproveitamento com brancas contra pretas. Uma diferença grande — mais de dez pontos percentuais — quase sempre significa um problema de repertório com a cor pior. É a coisa mais barata de consertar de toda a lista.
Resultado por controle de tempo. Se no rápido você vai bem e no blitz mal, está tudo em ordem. Se for o contrário, o problema não é de conhecimento e sim de uso do tempo: você está jogando as partidas longas com a cabeça do blitz.
Em que fase você perde. Se a maioria das suas derrotas se decide depois do lance trinta, o que falta são finais e técnica. Se se decide antes do quinze, é tática e abertura. As duas respostas são completamente diferentes.
Sequência depois de uma derrota. Se o seu aproveitamento cai muito na partida seguinte a uma derrota, o seu problema principal não é enxadrístico. É o mais fácil de corrigir de todos: basta uma regra de não jogar duas seguidas depois de perder.
Vale se preparar para isto porque desanima muita gente que ia bem: o rating não sobe em linha reta nem mesmo quando você está melhorando de forma constante.
O normal é subir oitenta pontos em três semanas, ficar seis semanas parado ou caindo, e depois subir mais sessenta. Os trechos parados não significam que você parou de melhorar: significam que o que você aprendeu ainda não se automatizou, e enquanto se automatiza consome atenção que antes estava em outro lugar. É comum jogar um pouco pior durante duas semanas logo depois de aprender algo importante.
Daí sai uma regra prática: o rating se olha uma vez por mês, não todos os dias. E o número a olhar não é o de hoje e sim a média do mês contra a do mês anterior, que é bem menos ruidosa.
E uma segunda: se você vai mudar de método, dê a ele três meses antes de julgar. Mudar a cada três semanas garante nunca colher, porque o xadrez tem um atraso de um mês ou dois entre o que você estuda e o que aparece na partida.
Para que o plano não fique abstrato, é assim que se parece um mês concreto deste trecho, com umas cinco horas semanais:
Todos os dias: quinze minutos de tática. Sem exceções, inclusive nos dias em que não jogar.
Terça e sábado: uma partida de trinta minutos, analisada no dia seguinte. Primeiro sozinho, com anotações; depois com motor.
Domingo: uma hora, alternando por semana. Semana 1: finais de rei e peão. Semana 2: o seu arquivo de aberturas, com o que apareceu nas partidas do mês. Semana 3: reler as quatro partidas analisadas e procurar o que se repete. Semana 4: um tema de meio-jogo.
Uma vez por mês: contar, nas suas últimas vinte partidas, quantas você perdeu por descuido, quantas por não saber o que fazer e quantas estavam ganhas. Essa contagem é o que decide o que você trabalha no mês seguinte.
Repetido quatro vezes, esse mês é o trecho inteiro.
É o platô mais comum do xadrez, e quase sempre significa a mesma coisa: a fase 1 já está e a fase 2 não foi feita. O jogador parou de dar peças, mas continua perdendo meios pontos em finais e continua sem saber o que fazer em posições tranquilas.
A saída não é mais tática — isso já rendeu o que tinha para render — e sim finais e estratégia. É uma mudança de dieta, não de quantidade.
Quanto tempo leva o trecho inteiro? Entre seis meses e um ano com cinco horas semanais bem distribuídas. O que mais o alonga não é estudar pouco e sim estudar o degrau errado, que é por isso que o diagnóstico acima economiza mais tempo do que qualquer método.
Preciso estudar aberturas para chegar a 1600? Não de memória. Você precisa sair da abertura com uma posição jogável, e isso os princípios mais um arquivo próprio de seis a oito lances dão. Estudar teoria neste trecho é gastar no que menos segura.
Devo jogar torneios presenciais? Ajuda muito sem ser imprescindível. Um torneio produz cinco ou seis partidas longas e analisadas num fim de semana, que é mais do que a maioria junta em dois meses.
O que faço se cair abaixo de 1200 depois de ter subido? Nada de especial. Uma queda de cem pontos está dentro da variação normal, sobretudo se você jogou poucas partidas. A resposta certa é não mudar nada durante três semanas e olhar de novo.
Se quiser levar isso para a prática com material organizado:

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