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Como analisar suas próprias partidas de xadrez (e só depois o motor)

O método em cinco passos para tirar de uma partida tudo o que ela tem, por que o motor vai por último e o que anotar para a análise virar plano de estudo.

Por AcademiaTal8 min de leitura

De todas as coisas que dá para fazer para melhorar no xadrez, esta é a que mais rende e a que menos gente faz direito. Analisar não é passar o motor na partida. É reconstruir o próprio pensamento e comparar com o que a posição pedia.

A diferença entre as duas coisas é a diferença entre saber que você errou e saber por quê.

Por que o motor vai por último

O motor é uma ferramenta extraordinária com um defeito: responde a uma pergunta que não é a sua.

O motor responde «qual era o melhor lance». Você precisa responder «por que escolhi o que escolhi». E essa segunda pergunta só você pode responder, naquele momento, antes de a resposta do motor contaminar a lembrança.

É um fenômeno conhecido: no instante em que você vê o lance certo, o cérebro reescreve a história. «Ah, claro, quase joguei.» Não, não quase. Por isso a ordem importa.

O método, em cinco passos

Passo 1: percorra a partida sem nada

Abra a partida, sem motor e sem banco de dados. Percorra desde o primeiro lance e pare em cada momento em que você lembra ter hesitado. Em cada um, anote três coisas:

  • Que lance você jogou.
  • Que outro estava considerando.
  • Por que escolheu o que escolheu.

Se não lembrar, anote isso também: «aqui não lembro de ter pensado nada» é um dado valiosíssimo, porque costuma marcar o ponto em que você parou de jogar e começou a mover.

Passo 2: marque os momentos críticos

Um momento crítico é um lance em que a partida podia ir para dois lados. Não são muitos: numa partida típica há de três a seis.

Costumam ser: o último lance da abertura antes de precisar de um plano, uma troca importante, a decisão de atacar ou consolidar, e a entrada no final.

É aí que está o aprendizado. O resto da partida é execução.

Passo 3: avalie você mesmo as posições críticas

Em cada momento crítico, escreva uma avaliação em palavras antes de olhar qualquer número:

«Acho que estou um pouco melhor aqui: tenho o par de bispos e o peão de d5 dele é fraco. Meu problema é que o cavalo dele vai para c4.»

Isso é desconfortável no começo e é exatamente a habilidade que separa um jogador de 1400 de um de 1800. Um número do motor não ensina; escrever a sua e comparar, sim.

Passo 4: agora sim, o motor

Só agora. E com duas regras:

Não role a avaliação lance a lance. Vá direto aos momentos críticos que você marcou e compare ali.

Quando o motor discordar, procure o motivo, não a linha. «O motor prefere Tc1» não serve de nada. «O motor prefere Tc1 porque prepara a ruptura c4 e o meu lance a impedia» serve.

Se não achar o motivo em dois minutos, deixe marcado e siga. Um motivo que não se entende não se aprende.

Passo 5: escreva uma linha

No fim da análise, uma única frase: o que você aprendeu com esta partida.

Exemplos reais do tipo de frase que serve:

  • «Troquei meu bispo bom pelo cavalo ruim dele sem motivo.»
  • «Ataquei com duas peças tendo três sem desenvolver.»
  • «No final eu tinha que ativar o rei e fiquei defendendo.»

Essa frase é a única coisa que você vai reler. E quando tiver vinte delas, vai ver que três ou quatro se repetem. Esse é o seu programa de estudo, saído das suas partidas e não da teoria geral.

O que fazer com as partidas ganhas

Analisar também, por um motivo que surpreende: na maioria das vitórias há dois ou três momentos em que a posição esteve pior do que pareceu e o adversário não aproveitou.

São erros que desta vez não custaram nada. Na próxima vão custar. E são os mais difíceis de detectar sozinho, porque o resultado os encobre.

O erro mais comum

Analisar todas as partidas por cima em vez de uma bem. Vinte partidas passadas pelo motor em vinte minutos não deixam nada; uma partida trabalhada quarenta minutos deixa uma frase que muda o seu mês.

Se você joga cinco partidas longas por semana, analise duas. É melhor do que as cinco por alto.

Como ler o que o motor diz

O motor entra por último, e quando entra é preciso saber lê-lo, porque interpretá-lo mal é a forma mais comum de perder tempo com uma ferramenta excelente.

A avaliação numérica é uma opinião, não um veredito. Um +0,7 não significa «ganho»: significa que com jogo perfeito dos dois lados há uma vantagem pequena. Em nível de clube, qualquer coisa entre −1 e +1 é uma posição em que o resultado é decidido por quem errar primeiro.

O que importa não é qual lance era melhor, e sim quanto custou o seu. Um lance que baixa a avaliação de +0,4 para +0,1 não é um erro: é ruído. Um que a baixa de +1,5 para −2 é. Procure os saltos grandes e ignore o resto; há uma tentação forte de «corrigir» dez lances medíocres e não aprender nada.

O motor não explica. Ele dá o lance e não o motivo, e o motivo é a única coisa que se transfere para a próxima partida. A forma de arrancá-lo é deixá-lo correr a partir do próprio lance por mais três ou quatro e olhar que posição produz: ali costuma se ver a ideia.

E o motor calcula variantes que você nunca vai jogar. Uma linha de sete lances forçados que termina num final ganho não é uma lição útil se você não sabe jogar aquele final. O que se deve tirar de uma partida são duas ou três coisas aplicáveis, não a verdade objetiva.

O que fazer com o que você encontrou

Analisar sem registrar é analisar pela metade. O que transforma vinte análises numa melhora é o que acontece depois:

Um documento com os seus erros, agrupados por tipo. Não uma lista de partidas: uma lista de erros. «Troquei damas tendo ataque», «não vi o xeque intermediário», «avancei peões na frente do meu rei». Depois de vinte partidas, esse documento mostra os seus três erros recorrentes, e esses três são o seu plano de estudo.

Uma posição guardada por erro. O diagrama do momento exato em que você errou. Rever dez dessas posições uma vez por mês vale mais do que cem problemas novos, porque são suas e porque o erro ainda está vivo.

Uma frase por partida. No fim da análise, escreva numa linha o que aprendeu. Se não conseguir escrevê-la, a análise não terminou.

E a verificação mensal: ler o documento inteiro. Você vai ver que três erros explicam metade das suas derrotas, e que dois deles já não aparecem. Este último ponto é o mais difícil de perceber de outra maneira, e é o que sustenta a constância.

Quanto tempo, e com que partidas

Para ser sustentável tem de ser curto:

Vinte minutos por partida. Dez sem motor, cinco com motor, cinco escrevendo. Mais do que isso não rende proporcionalmente e faz você parar na terceira semana.

Duas partidas por semana. Não todas. Escolha as que ensinam: uma derrota numa posição que você entendia, e uma vitória sofrida. As derrotas por descuido de um lance não precisam de análise — você já sabe o que aconteceu — e as vitórias fáceis também não.

E de vez em quando, uma inteira e lenta. Uma hora sobre uma única partida sua, sem motor, escrevendo o que você pensava em cada momento-chave. É o exercício mais parecido com ter um treinador que se pode fazer sozinho, e uma por mês basta.

O que se deve evitar é o padrão de tudo ou nada: analisar seis partidas num domingo, esgotar-se, e não analisar mais nada por dois meses. Vinte minutos duas vezes por semana derrota isso por muito.

Um formato mínimo que funciona

Não precisa de software especial. Um arquivo de texto por partida com isto basta:

`` Data, adversário, resultado, ritmo Abertura: o que joguei e até que lance me senti confortável Momento crítico 1: lance, o que pensei, o que o motor diz, por quê Momento crítico 2: ... O que aprendi: (uma frase) ``

Dez desses e você já tem um diagnóstico melhor do que qualquer conselho geral da internet, porque é sobre as suas partidas.

Perguntas relacionadas

Preciso analisar todas as minhas partidas? Não, e querer fazer isso é a razão mais comum pela qual as pessoas param de analisar. Duas por semana, escolhidas — uma derrota que doeu e uma vitória sofrida — rendem mais do que tentar todas e abandonar em um mês.

Posso analisar sem motor? Sim, e durante os primeiros meses é até melhor. O que o motor acrescenta é precisão; o que tira, se usado primeiro, é o exercício de procurar por conta própria, que é onde está quase todo o aprendizado.

Quanto tempo por partida? Vinte minutos. Dez sem motor, cinco com motor, cinco escrevendo a conclusão. Análises de duas horas soam sérias e quase nunca se sustentam mais de três semanas.

O que faço com as partidas que ganhei fácil? Nada. Não ensinam quase nada e ocupam o tempo das que ensinam. A exceção é uma vitória em que em algum momento você esteve pior: essa vale tanto quanto uma derrota.

Perguntas frequentes

Como se analisa uma partida de xadrez?
Primeiro sem motor: percorrer a partida anotando o que você pensou em cada decisão, onde ficou em dúvida e qual plano seguia. Só depois ligar o motor e comparar. A diferença entre as duas versões é exatamente o que falta aprender.
Quanto tempo leva analisar uma partida?
De vinte a quarenta minutos para uma partida longa, quase o mesmo que a partida durou. Se levar cinco minutos, o que se fez foi olhar a avaliação do motor, que não é a mesma coisa.
Vale a pena analisar as partidas que ganhei?
Sim, e muito mais do que parece. Numa vitória costuma haver vários momentos em que a posição esteve pior e ninguém aproveitou: são erros que desta vez não custaram nada e vão custar na próxima.

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