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Quantas horas por dia é preciso estudar xadrez?

Quanto tempo é realmente necessário para subir de nível, como distribuir na semana e por que meia hora por dia rende mais do que cinco horas no domingo.

Por AcademiaTal8 min de leitura

A pergunta sempre chega com uma expectativa por trás: que a resposta seja um número grande e que esse número explique por que a pessoa não melhora. A resposta real é mais desconfortável e mais animadora ao mesmo tempo: com meia hora bem usada por dia dá para progredir de forma sustentada durante anos.

O que quase nunca basta é meia hora mal usada.

Por que a constância vence o total

O xadrez se aprende por reconhecimento de padrões, e padrões se fixam do mesmo jeito que o vocabulário de um idioma: por repetição espaçada. Ver o mesmo motivo tático seis vezes em seis dias deixa uma marca muito mais profunda do que vê-lo seis vezes numa tarde.

Por isso uma rotina de trinta minutos diários rende mais do que uma sessão de três horas no domingo, mesmo com um total semanal parecido. A sessão longa parece produtiva e se esquece rápido; a curta parece insuficiente e fica.

Há também um motivo prático: uma rotina curta sobrevive a uma semana ruim. Meia hora sempre se acha. Três horas seguidas dependem de nada acontecer, e sempre acontece.

Uma semana realista

Para quem trabalha ou estuda e quer subir de nível de verdade, isto basta:

Segunda a sexta, 25 minutos:

  • 15 minutos de tática, com calma e calculando até o fim.
  • 10 minutos do tema que você estiver trabalhando naquele mês.

Um dia da semana, 60 a 90 minutos:

  • Uma partida longa, de trinta minutos ou mais.
  • A análise dela, que leva quase o mesmo tempo que a partida.

São cerca de quatro horas por semana. Não é pouco e não é impossível: é uma série a menos.

Como distribuir esse tempo

A proporção importa mais do que o total, e muda conforme o nível.

Até 1200. Quase tudo tem que ser tática básica e princípios de abertura. Setenta por cento tática, vinte por cento partidas analisadas, dez por cento finais elementares. Nessa altura as partidas se decidem por peças dadas de graça: qualquer outra coisa é luxo.

De 1200 a 1600. O meio-jogo começa a pesar. Quarenta por cento tática e cálculo, trinta por cento estratégia — planos, estruturas, avaliação —, vinte por cento finais, dez por cento abertura.

De 1600 a 2000. A abertura começa a render, porque já há com o que aproveitar a posição que ela produz. Trinta por cento tática, trinta estratégia, vinte finais, vinte abertura e repertório.

Acima de 2000. Aí a resposta deixa de ser geral: depende do perfil do jogador, dos torneios e dos adversários. É também o ponto em que trabalhar com alguém deixa de ser opcional se o objetivo é competir.

Os três erros de distribuição mais comuns

Tudo abertura. É a parte mais divertida e a mais disponível. Também é a que menos decide partidas antes dos 1800.

Tudo puzzle. Puzzles são excelentes e não são um plano completo. Treinam reconhecer que existe uma tática; não treinam o que fazer quando não há nenhuma, que é a maior parte de uma partida.

Nada de finais. É a parte que mais rápido devolve pontos por hora investida, e a que quase todo mundo adia. Saber três finais de torre direito vale mais do que vinte linhas de abertura.

Quanto tempo até aparecer

Com quatro horas semanais bem distribuídas, o normal é notar o primeiro salto claro entre o terceiro e o sexto mês. Antes disso há mudanças que não aparecem no rating mas aparecem nas partidas: menos peças dadas, mais finais terminados direito, menos posições em que você não sabe o que fazer.

É exatamente por isso que convém medir outra coisa além do rating. Se o único termômetro for o número, três meses de progresso real podem parecer três meses perdidos.

O que fazer com a hora que você tem

Quase todo mundo que faz essa pergunta tem entre meia hora e uma hora por dia, e o problema não é o total e sim que essa hora é gasta no que menos rende. Em ordem de rentabilidade, para quem está abaixo de 1600:

Analisar as próprias partidas — o primeiro, com folga. Meia hora analisando uma partida sua ensina mais do que três horas de vídeo. É a única atividade que trabalha exatamente sobre o que falta a você.

Tática — o segundo, e o que aparece mais rápido. Quinze ou vinte minutos por dia.

Finais elementares — o terceiro, e o mais ignorado. Rei e peão, torre e peão. São cinco ou seis horas no total, para a vida toda.

Material sobre meio-jogo — um curso, um livro. Vale muito, mas depois dos três de cima.

Aberturas — o último, e por bastante. É o que a maioria põe em primeiro lugar.

A regra prática: se a sua hora não inclui analisar uma partida sua pelo menos uma vez por semana, está mal distribuída, não importa o que tenha dentro.

O estudo que não parece estudo

Há uma camada inteira de trabalho que quase ninguém contabiliza e que rende muitíssimo, porque acontece em momentos que de outro modo se perderiam:

Jogar partidas mentalmente. Ler uma partida comentada sem tabuleiro, no telefone, no ônibus. É desconfortável no começo e treina a visualização, que é o músculo do cálculo.

Reler o seu próprio arquivo de aberturas. Cinco minutos, lendo.

Olhar uma posição e decidir o lance, sem mover. Uma por dia basta.

Ouvir alguém explicar uma partida enquanto você faz outra coisa. Vale bem menos do que o anterior, mas não vale zero: a exposição repetida a bom xadrez constrói intuição mesmo sem concentração.

Somado, isso pode ser meia hora por dia que você não tira de nada. E é a margem que separa quem estuda cinco horas semanais de quem estuda oito sem ter mudado nada na sua rotina.

Quando estudar menos é o certo

Há três momentos em que baixar a carga é a decisão boa e quase ninguém a toma:

Quando você está jogando muito pior do que o normal durante uma semana. Quase sempre é cansaço, não um problema técnico, e a resposta é descansar dois dias e não dobrar o estudo.

Quando o estudo deixou de ser específico. Se você não consegue dizer numa frase o que está trabalhando este mês, não está estudando: está consumindo material. É melhor uma hora semanal com um tema claro do que cinco sem nenhum.

Antes de um torneio. Na semana anterior não se aprende nada novo — não dá tempo de automatizar — e se chega cansado. Nessa semana: tática leve, releitura do repertório, dormir.

E uma que vale sempre: o descanso é parte do método. Os padrões se consolidam dormindo, não revisando. Uma semana de seis dias de trabalho e um inteiro sem xadrez rende mais do que sete dias seguidos, e isso está medido em qualquer disciplina que dependa da memória.

E se você tem menos tempo

Dez minutos por dia também servem, com uma condição: que sejam sempre a mesma coisa. Dez minutos de tática todos os dias, durante seis meses, mudam um jogador de 1200. Dez minutos de uma coisa diferente a cada dia não mudam nada.

Quando o tempo é pouco, a especialização é o que salva. Escolha uma coisa só, trabalhe até ficar automática, e só então mude.

Perguntas relacionadas

É melhor uma hora por dia ou sete no domingo? Uma hora por dia, e por bastante. A memória de padrões se consolida entre sessões, não dentro de uma sessão, então sete dias de contato valem mais do que sete horas de um dia. Além disso, a sessão longa tem rendimento decrescente depois da primeira hora e meia.

Quanto é preciso estudar para subir 200 pontos? Entre cem e duzentas horas bem distribuídas, para quem está abaixo de 1600. Posto em calendário, são de seis meses a um ano a cinco horas semanais. Acima de 1800 o mesmo salto custa o dobro ou o triplo.

Jogar conta como estudar? Só se você analisar. Uma partida jogada e não revisada é prática, que é necessária, mas não é estudo: não corrige nada. A regra prática é que metade do seu tempo de xadrez deveria produzir alguma conclusão escrita.

E se em alguns dias eu não conseguir? Não acontece nada, e convém prever isso: um plano que se quebra com um dia perdido não é um plano. O que se deve proteger é a sequência semanal, não a diária.

Como sustentar a rotina quando a semana se quebra

Todo plano de estudo funciona na semana ideal e desmorona na real, então convém ter escrito o que fazer quando a semana não dá:

O mínimo irredutível são quinze minutos de tática. É a única coisa que não se pula, porque é o que mantém o contato diário e evita que a pausa de três dias vire uma de três semanas.

Se algo tiver de ser sacrificado, sacrifica-se o estudo e não a partida analisada. É contraintuitivo e é o certo: uma partida sua revisada rende mais do que uma hora de material.

Uma semana perdida não se recupera. Não se deve fazer o dobro na seguinte; o xadrez não funciona assim e a tentativa costuma terminar em abandono. Retoma-se onde parou.

E convém ter uma versão de vinte minutos do plano. Escrita de antemão: quinze de tática e cinco lendo o arquivo de aberturas. Com isso, nenhuma semana fica em zero, e é isso que sustenta os meses.

A constância não é uma virtude de caráter: é um plano que aguenta as semanas ruins, e isso se projeta.

Perguntas frequentes

Quantas horas por dia é preciso estudar xadrez para melhorar?
De vinte a quarenta minutos diários de trabalho dirigido bastam para progredir de forma sustentada. O que decide não é o total de horas, e sim a constância: meia hora todos os dias rende mais do que três horas juntas uma vez por semana.
Dá para melhorar estudando só nos fins de semana?
Dá, mas rende bem menos. Os padrões táticos se fixam por repetição espaçada, então duas sessões de três horas deixam menos do que seis sessões de uma. Se só houver o fim de semana, divida em blocos curtos.
Quanto estudam os jogadores profissionais?
De quatro a seis horas por dia, mas é o trabalho deles e boa parte é preparação específica contra adversários concretos. Comparar sua rotina com a de um profissional é a forma mais rápida de abandoná-la.

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