
A nova lógica do xadrez: avaliação, meio-jogo e endgame
Quatro aulas e oito horas de formação para entender a avaliação moderna, interpretar o engine, encarar posições complexas e melhorar a técnica de endgame.
ARPor GM Andrés Rodríguez
O que significa «jogar bem» em cada etapa, quanto tempo leva cada uma e por que o progresso chega em degraus e não em linha reta.
A pergunta é difícil porque «jogar bem» significa coisas muito diferentes para quem acabou de aprender a mover as peças e para quem joga torneios. Vale separar em etapas, porque os tempos de cada uma são bastante previsíveis.
As regras se aprendem em duas horas: como cada peça se move, o roque, a captura en passant, a promoção, o xeque, o mate e as formas de empate.
No fim desta etapa dá para jogar uma partida inteira. Não bem, mas inteira.
É a etapa que quase ninguém nomeia e a que mais evita frustração. Consiste em aprender os três mates básicos — dama e rei, torre e rei, duas torres — para conseguir fechar uma partida ganha.
Sem isso, chegar a um final com uma dama a mais e não conseguir ganhar é a experiência que faz muita gente largar o xadrez no primeiro mês.
Uma semana, com meia hora por dia.
Aqui é onde o jogo de verdade acontece. A maioria das partidas de iniciante se decide porque alguém deixou uma peça onde podiam pegá-la, e até isso cair, nada mais importa.
O que é preciso:
Dois ou três meses de prática constante. No fim, a quantidade de partidas perdidas por um único lance cai pela metade.
Agora começam a aparecer partidas em que é preciso decidir algo. O que se aprende aqui:
No fim desta etapa você joga razoavelmente bem: ganha com folga de quem joga casualmente, entende o que acontece na partida e perde por motivos que consegue explicar.
Para a maioria de quem pergunta «quanto tempo leva para jogar bem», a resposta é esta etapa: de seis meses a um ano.
Nível de clube sólido. Repertório próprio, técnica de finais, cálculo confiável, capacidade de sustentar uma posição difícil.
Dois a quatro anos de trabalho com método. E aqui o tempo importa menos do que o método: há quem chegue em dois anos treinando quatro horas por semana e quem não chegue em dez jogando todo dia sem analisar nada.
É a parte que mais confunde e vale saber de antemão: não se melhora um pouquinho todo dia. Estuda-se algo por semanas sem ver mudança nenhuma, e de repente aquilo aparece em três partidas seguidas e o rating sobe cinquenta pontos numa semana.
O motivo é que um padrão novo passa por duas fases: primeiro é entendido — e ainda não serve, porque é preciso lembrar de usá-lo — e depois é automatizado, e aí sim aparece sozinho na partida. Entre as duas há semanas de aparente imobilidade.
Esse platô não é estagnação: é a fase de instalação. E é exatamente onde mais gente desiste, um pouco antes de o trabalho começar a render.
Acelera:
Não acelera:
Parte da dificuldade da pergunta é que a palavra muda de significado conforme quem a usa, e convém manter os quatro sentidos separados:
«Bem» para a sua família. Ganhar de qualquer um que aprendeu as regras e joga de vez em quando. Isso são três ou quatro meses de prática constante. É o limiar que quase todo mundo tem em mente ao perguntar, e está muitíssimo mais perto do que se imagina.
«Bem» numa plataforma on-line. Estar acima do jogador médio, que na maioria dos sites fica em torno de 800 ou 900 no rápido. Isso são seis meses.
«Bem» num clube. Sustentar partidas contra gente que estuda, ganhar algumas, entender por que perde as outras. Cerca de dois anos.
«Bem» em sentido forte. Nível de torneio, 1900 ou 2000, onde a sua opinião sobre uma posição vale algo. Quatro ou cinco anos de trabalho sério, e nem todo mundo chega, assim como nem todo mundo corre uma maratona em três horas.
Vale fazer o exercício de decidir qual dos quatro você está perguntando, porque a resposta muda numa ordem de grandeza e porque mirar no quarto quando você queria o primeiro é a melhor forma de abandonar no mês três.
Se tudo o que veio antes tivesse de ser reduzido a uma lista do que faz o relógio correr mais rápido, é esta, e a ordem importa:
1. Analisar as próprias partidas, à mão e antes do motor. É o multiplicador. Duas pessoas com as mesmas horas e o mesmo material terminam em níveis muito diferentes conforme façam isso ou não. A razão é que é a única atividade que trabalha sobre os seus erros específicos, e os seus erros específicos são a única coisa que está lhe segurando.
«À mão e antes do motor» não é um detalhe: o motor dá a resposta, e receber a resposta sem ter tentado encontrá-la não treina nada. A ordem certa é revisar a partida sozinho, anotar onde você acha que ela se torceu, e depois ligar o motor para ver se acertou.
2. Jogar devagar. As partidas longas são as únicas em que você tem tempo de aplicar o que estudou. Tudo o que você aprender se instala jogando devagar e se esquece jogando rápido.
3. Trabalhar um tema por vez. Três meses de finais ensinam mais do que três meses de um pouco de tudo, porque o conhecimento fragmentado não se conecta. Escolher um tema, sustentá-lo um trimestre, e só então mudar.
O que não está na lista, embora todo mundo coloque: estudar aberturas, assistir a partidas de grandes mestres, jogar muito volume. Os três valem algo. Nenhum dos três move o ponteiro como os de cima.
Sem olhar o rating, que é lento e ruidoso. Olhe as últimas dez partidas que perdeu e pergunte em qual destes quatro grupos cai a maioria:
Você perdeu peças num único lance. Está na etapa 3. A única coisa que importa é a rotina de conferência e a tática diária. Todo o resto pode esperar.
Você perdeu por tática do adversário de dois ou três lances. Fim da etapa 3, começo da 4. Siga com a tática, e comece a olhar os xeques e capturas do adversário antes de cada lance.
Você perdeu porque não sabia o que fazer. Etapa 4. Aqui entra o meio-jogo: planos, estruturas, avaliação. É onde um curso rende mais.
Você perdeu finais equilibrados ou partidas que estavam ganhas. Etapa 5, e parabéns: chegou ao ponto em que o que falta é técnica e não compreensão. Finais, e trabalho de conversão.
Esse diagnóstico leva quinze minutos e economiza meses, porque o erro mais caro não é estudar pouco: é estudar a etapa errada.
O xadrez não tem linha de chegada, e essa é a melhor coisa dele: é uma das poucas atividades em que dá para continuar melhorando aos sessenta anos, porque o que se acumula é compreensão e não reflexo.
Então a pergunta útil não é quanto tempo leva para chegar, e sim quanto tempo leva para começar a curtir. E aí a resposta é bem mais curta: parar de dar peças já basta, e isso são dois ou três meses.
Quanto tempo levo para chegar a 1500? Com cinco horas semanais bem distribuídas, entre um e dois anos do zero. Com dez horas não se leva a metade: o rendimento por hora cai bastante depois das seis ou sete semanais, porque o que falta deixa de ser tempo e passa a ser consolidação.
Existe um teto de talento? Existe e está muito mais alto do que se pensa. Abaixo de 2000, a diferença entre dois jogadores se explica quase inteiramente por horas e método; o talento começa a decidir bem depois de onde quase todo mundo desiste.
Dá para aprender rápido se eu estudar oito horas por dia? Dá para avançar muito mais rápido e não proporcionalmente. A memória de padrões precisa de dias para consolidar, então oito horas diárias produzem talvez o triplo de uma, não oito vezes. E esgota, que é o que acaba cortando o processo.
E se eu só quiser jogar sem melhorar? É uma resposta perfeitamente válida e convém decidi-la de propósito. A única coisa que não funciona é querer melhorar e organizar o tempo como quem só quer jogar.
Se quiser levar isso para a prática com material organizado:

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