Escolher professor se parece bastante com escolher médico: quase todo mundo olha as credenciais, e o que decide o resultado é outra coisa.
O que o título diz e o que não diz
Um título FIDE — mestre, mestre internacional, grande mestre — certifica força de jogo. É informação real e não é a que mais importa para você.
O motivo é simples: para levar alguém de 1200 a 1800 é preciso explicar bem conceitos que um mestre FIDE domina de sobra. A diferença entre 2300 e 2600 de força não muda nada nessa tarefa; a diferença entre explicar bem e explicar mal muda tudo.
Onde o título pesa mesmo: acima de 2000, quando o que se precisa é preparação de repertório e trabalho sobre partidas complexas. Aí a força do treinador começa a ser um teto real.
O que vale olhar
Que ensine no seu nível habitualmente. Um treinador que trabalha todo dia com jogadores de 1300 sabe exatamente o que custa a eles, em que ordem se resolve e qual explicação funciona. Um que só treina titulados vai dar material excelente e mal calibrado.
Que peça suas partidas antes da primeira aula. É o sinal mais confiável que existe. Um treinador que quer ver como você joga antes de falar com você está fazendo o certo; um que começa com o programa dele sem olhar você, não.
Que consiga explicar algo simples de forma simples. Peça na primeira aula que explique por que um bispo ruim é ruim. Se a resposta for clara e com um exemplo, bom sinal. Se for longa e cheia de nomes de variantes, mau sinal.
Que fale o seu idioma com conforto. Parece óbvio e não é: o xadrez se ensina com nuances — «aqui costuma ser melhor», «aqui é quase sempre» — e essas nuances se perdem num idioma que nenhum dos dois domina de verdade.
As cinco perguntas para a primeira aula
Antes de se comprometer com um plano longo, uma aula avulsa com estas perguntas diz quase tudo:
1. «O que você vê nas minhas partidas?» Você quer uma resposta concreta e hierarquizada: «seu problema principal é este, e este outro é secundário». Uma resposta genérica — «falta tática» — não serve.
2. «O que você recomenda treinar nos próximos dois meses?» Tem que sair um plano curto e específico. Se a resposta for «vamos vendo», falta algo.
3. «Como trabalhamos entre uma aula e outra?» A resposta certa inclui tarefa. Um treinador que não deixa trabalho entre aulas está vendendo horas, não progresso.
4. «Com que nível você trabalha habitualmente?» Não há resposta ruim, há respostas que encaixam ou não com você.
5. «O que você espera de mim?» Um bom treinador tem expectativas: quantas partidas por semana, quanto tempo de estudo, o que anotar. Dizer isso é sinal de que trabalha com método.
Sinais de alerta
Promete rating. «Levo você a 2000 em seis meses» ninguém pode saber. O progresso depende sobretudo do que você fizer.
Usa a aula para as próprias partidas. São divertidas e não são o seu material de estudo.
Não adapta o material. Se a aula três for igual para você e para o aluno anterior, não houve diagnóstico.
Vende um pacote longo no primeiro contato. Um plano de vinte aulas antes de ter visto uma partida sua é uma venda, não um plano.
Como começar sem se comprometer
O caminho sensato:
- Uma aula de diagnóstico com cinco partidas enviadas antes.
- Duas ou três semanas de trabalho sobre o que sair dali.
- Uma segunda aula para ver se o rumo serve.
- Só então, um plano mais longo.
Se depois de duas aulas você não tiver um plano claro e uma tarefa concreta, o problema não é o seu nível: é o encaixe. E trocar de treinador não tem nada de errado.
Como aproveitar a primeira aula
Uma primeira aula mal usada não diz nada, e é ela que decide se você contrata alguém por seis meses. Três coisas que fazem valer:
Mande três partidas antes. Duas derrotas e um empate ou uma vitória sofrida. Escolha das últimas semanas, com tempo de reflexão longo. Que sejam vistas antes da aula, não durante: a aula serve para conversar, não para ler.
Escreva o que você acha que lhe falta. Duas ou três frases. Depois compare com o que lhe dizem. Se coincidir, você tem um problema identificado e um plano; se não coincidir, tem algo muito mais valioso: um ponto cego nomeado por alguém que o vê de fora.
Pergunte o que você deve fazer entre esta aula e a próxima. É a pergunta que separa um treinador de um comentarista. Se a resposta for vaga — «continue praticando» — a aula foi entretenimento.
E um aviso sobre como ler essa primeira aula: gostar da pessoa não é informação suficiente, mas não gostar é. Você vai passar horas mostrando suas piores partidas a essa pessoa; se tiver vergonha de fazer isso, não vai aprender nada por melhor que ela seja.
De quanto em quanto tempo convém uma aula
É a decisão que mais dinheiro economiza e quase ninguém pensa nela: a frequência importa mais do que a quantidade.
Uma aula por semana só faz sentido se você tiver cinco ou seis horas semanais para trabalhar entre uma e outra. Se não, chega à aula sem ter feito a tarefa e a aula se gasta repetindo.
Uma a cada duas semanas é o que funciona para quase todo mundo que trabalha ou estuda. Dá tempo de jogar quatro ou cinco partidas e de trabalhar um tema.
Uma por mês funciona surpreendentemente bem para quem é disciplinado. A aula passa a ser uma revisão e uma correção de rumo, e no meio você trabalha sozinho.
Um pacote de quatro e depois nada é a melhor opção para o caso mais comum de todos: alguém estagnado que precisa de um diagnóstico, não de acompanhamento. Quatro aulas bastam para lhe dizerem o que falta; o que vem depois você faz.
A regra: mais aulas não é mais rápido. O progresso é produzido pelo trabalho entre as aulas, e a aula apenas o dirige.
Como saber se está funcionando
Aos três meses, três perguntas honestas:
Você consegue nomear o que está trabalhando? Se a resposta for «xadrez em geral», não há plano. Um bom treinamento tem um tema por vez e você sabe qual é.
Mudou algo mensurável? Não o rating — que se move com atraso — e sim algo concreto: menos peças perdidas, menos derrotas em posições ganhas, melhor gestão do relógio. Algo que você possa contar.
Você está fazendo mais trabalho sozinho do que antes? É o sinal mais importante de todos. Um bom treinador torna você mais autônomo, não mais dependente. Se aos seis meses você não souber como estudar sem ele, algo saiu ao contrário.
E o sinal de que chegou a hora de parar, que também é preciso saber ler: quando a aula deixa de produzir erros novos. Aí o que falta não é ensino, é rodagem, e essa se compra jogando.
O que um bom professor não vai fazer
Não vai estudar por você, não vai analisar suas partidas por você, e não vai fazer você melhorar só por ir à aula. Vai fazer com que as horas que você já ia dedicar ao xadrez rendam o dobro, porque vão estar colocadas no lugar certo.
Isso é muito. É, na verdade, a única coisa que se pode comprar neste jogo.
Perguntas relacionadas
Quanto mais forte do que eu ele precisa ser? Entre quatrocentos e oitocentos pontos, que é a faixa em que ele entende os seus erros porque os cometeu há pouco e ainda lembra. Alguém mil e quinhentos pontos acima muitas vezes já não consegue explicar por que você tem dificuldade com algo que para ele sai sozinho.
Serve um treinador por videochamada? Igualmente bem que presencial para quase tudo. A única coisa que se perde é o trabalho no tabuleiro físico, que importa se você for competir; compensa-se reproduzindo as partidas num tabuleiro em casa enquanto conversam.
Posso treinar com um amigo mais forte em vez de pagar? Sim, e funciona bastante bem com uma condição: que haja estrutura. Um amigo que comenta uma partida por semana rende; um com quem você só joga, não. O que um treinador acrescenta é o método, e isso pode ser combinado.
É mau sinal ele não me fazer jogar na aula? Sim. Uma aula em que você só escuta rende uma fração de uma em que lhe perguntam. A proporção saudável é mais da metade do tempo com você decidindo lances.
Perguntas relacionadas
Quanto deveria custar uma aula? Entre quinze e trinta dólares a hora se consegue um bom treinador para nível de clube em quase toda a América Latina. Acima de quarenta se paga força de jogo que em nível de clube não rende.
Posso trocar de treinador sem problema? Sim, e é normal: um treinador que servia aos 1300 pode não ser o melhor aos 1700. Não é preciso explicação nem drama; a única coisa que convém é levar o registro do que foi trabalhado.
Quanto demora para uma aula aparecer? Entre três e seis semanas, e não no rating e sim no tipo de erro. Se aos três meses você não conseguir nomear o que mudou, algo está errado no método ou no trabalho entre as aulas.
Serve um treinador para uma criança de sete anos? Menos do que um clube. Nessa idade metade do envolvimento é social e o que há para ensinar é uma coisa só — olhar antes de mover — que não precisa de aula particular.